sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu falo é Nordestinês I

(Se da gente alguém mangar, se aqu’ete e espie o derredor)

I- Pense numa fala bonita/ Essa fala que a gente fala. Ela é igualzinha uma mala/ Como que feita de bauxita. É maneira como o algodão/ Ela é forte que nem trovão/ Pois tanto cala como grita.
II- Aumenta o papel, a solidez... Conto que todo mundo torça,/ ...A unificação dá nova força/ Ao nosso idioma: Português/ Mas pedin’ a Deus que ajude/ Agora eu frechero no açude/ Do regional, o Nordestinês.
III- Se da gente alguém mangar/ Achando que é mais, melhor,/ Se aqu’ete e espie o derredor/ Nem pegar ar, nem arengar/ Vai resolver esse trinchinchim/ Carece esperar um pedacin’/ E nas últimas, botar pra torar:
IV- Botar pra descer no féla/ No infeliz das costas ocas/ Cuidar de engomar a roupa/ Se acaso arrochar as goelas. Mas é melhor jogar buraco/ Do que arrancar um taco/ Do couro de quem apela...
V- Beber por aqui é tomar uma/ Seja a dose, seja um drinque/ Ao resenhar nunca brinque/ Num espanto diga: cuma? Não que queira dar migué/ É só pra que a gente dê fé/ Do que a gente tem de ruma.
VI- Não me aperreio encabulado/ Com a moléstia dos cachorros/ Só dou rolé com meus gorros/ Eu sou mesmo é um cagado*/ Sem que eu queira arrodear/ Muito menos, me encompridar/ Ah se eu fosse um estribado!
VII- Pra findar o moído em boa hora/ Estou terminando essa zoada: Evite um carão, uma mãozada! Dou um conselho, sem demora,/ Nunca invente de botar boneco/ Nem se bulir’ em seu parreco. Pegue o beco e vá-se embora.

*Sortudo, variante: cagado de sorte
Evaldo Pedro da Costa Brasil 
(Em 30 de Abril de 2010)
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Eu falo é Nordestinês II

(Quando o idioma e costumes fazem pareia)

I- Nordestino nunca sai pra farra/ Ele sai pro moído, pra bagaça*/ Sai desembestado, na cachaça/ Nunca pega, ele dá de garra... Nordestino não é distraído,/ Ele é avoado, não faz alarido/ Se apombaiado, vai na marra!
II- Nordestino é mesmo danado/ Não passa roupa, ele engoma! Nunca divide, reparte e soma. Não acompanha os namorados,/ Ele segura vela! Vende cocada/ E se ele arranja uma namorada/ Não casa, fica logo amancebado.
III- Nordestino não pede almoço,/ Nem jantar, ele pede o comer/ Não se diverte, bota pra moer/ E Nordestino não tem pescoço/ Tem cangote; carrega um pote/ Invés de calça frouxa usa folote/ Jamais é magro, é couro-e-osso.
IV- Nordestino nunca fica satisfeito/ Quando come, ele enche o bucho! Vive muito bem com pouco luxo/ Nordestino não liga com o malfeito/ Não tem diarreia, come pelas beiras/ Só fica leso quando tem caganeira! E ri de si mesmo se nota seu defeito.
V- Nordestino não tem anus nem axila/ Quando fede é sovaqueira ou peido... Chulé é grude ou frieira nos dedos... Boqueira, dente podre ou uma quizila./ A gente não tem perna fina de cabrito/ Desfila em cima de um par de cambitos/ E toma um deforete quando desopila.
VI- O Nordestino não é mulherengo/ Ele é raparigueiro! Ele alopra! Não exagera. Se queimar assopra. Não faz fantoche, faz mamulengo/ A Nordestina não fica grávida/ Fica buchuda, agradece a dádiva/ Sem se agoniar, ela coça o quengo.
VII- Nordestino sendo forte é parrudo/ Dá uns bofetes, não pula, pinoteia,/ Se alguém esquenta quando arreia,/ Dá peteleco, uns croques e cascudo... Se for franzino é somente um chocho/ E se for perna-de-pau é um tipo coxo/ Dá é uma carreira se o outro for taludo.

*Redução de bagaceira.
Evaldo Pedro da Costa Brasil
(Em 27 de Maio de 2010)