sábado, 5 de abril de 2014

C49-041 Em Vão se Vai o Idealismo e a Vida Perde seu Lirismo



(A poesia de Silvino Olavo III) Releitura do poema "Idealismo Vão" na página 2 do Boletim Virtual

C49-010 Saudade da Porca do Dente de Ouro


I
Ela já não circula entre nós
Em sua performance encantada,
Nossa formosa Porca libidinosa
Com sua dentadura dourada.
Mas, teria sido pela sua vida,
Aquela mulher, em sua lida,
Má, ou só mal interpretada?

II
Teria sido por incoerência ou
Vítima de um imposto sacrário?
Ou mesmo uma total descrença
Que a revoltou contra o berçário?
Seria pela intolerância dos pais?
Algo em que se errou demais?
Tornar inimigo um adversário?

III
Teria sido ato de ninfomania
Ou ato de amor e coragem?
Fruto de fêmea em rebeldia?
Um choque na politicagem?
Por não suportar o inculto
Ser alcunhada de ser bruto
De bebedora de lavagem?

IV
Houve quem isso negasse
Temendo um poder fugaz
Houve quem se enamorasse
Ante a moça, no que apraz.
Mas eis que a bala comeu
A comunidade então temeu
A morte dela, azar do rapaz.

V
Não se tinha energia elétrica
Mas havia muita imaginação
Humor contado de Trancoso
Terror de mito – assombração.
Circulava por todas as classes
Refletia-se em todas as faces
Entre o trágico e o dramalhão.

VI
Por pudor ou por preconceito
Girar na roda do prazer viraria,
Pecado mortal, erro, afronta,
Insanidade, verdadeira porcaria,
Pela casa paroquial, pelo correio,
Como no fim de Julieta e Romeu,
Um final shakespeariano se via.

VII
Então, vai-se perder na memória,
O que quase dava numa morte
E nem entrou para a história?
Essa mulher e sua pouca sorte!
Ela já morreu, o mito revive,
Já há tantas, – Deus me livre!
Nenhuma com o mesmo porte.

Evaldo Pedro Brasil da Costa
(26 de Dezembro de 2007)

C49-009 Do Ano Novo que Chega


(Se o ano novo não chega não se pode refletir)

I
O ano velho assim termina
E o novo já está por vir
É o tal ciclo inevitável
Que não se pode impedir
Querer no tempo voltar…
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

II
Do ano novo que chega
Não custa nada pedir
Planejar mais que esperar
Diante do incerto porvir
E tentar recomeçar, pois,
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

III
Uma lei que não se nega
Evolução que há de vir
Pede pausa pra pensar
Revendo o modo de agir
E tentar-se avaliar, que,
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

IV
Então o novo não chega
Para quem se despedir
E no outro lado da vida
Revendo o seu progredir
Lamenta não aceitar que
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

V
Do ano novo que chega
Para poder progredir
É preciso olhar o velho
Revisar, rever e seguir,
Não se deixar enganar…
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

VI
Não chorar por leite frio
Desse ato, de fato sorrir,
Pela estrada, paro o Rio,
Seguir em frente, partir,
Tentar de novo e entender
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

VII
E esse modesto relato
De ocasião, ao dividi-lo,
Já posso comemorar
Por me ver a produzi-lo,
Consegui me convencer:
Se o ano novo não chega
Não se pode refletir.

Evaldo Pedro Brasil da Costa
(22 de Dezembro de 2007)

C49-038 E um Poeta se Faz Palhaço no Circo Louco da Vida



(A poesia de Silvino Olavo II) Releitura do poema "O Meu Palhaço" está na página 04 do Boletim Virtual

(O soneto O Meu Palhaço, de Silvino Olavo é aqui relido na forma de sétimas. Esse exercício de escrita é uma tentativa de entrar no íntimo do poeta através de um dos seus trabalhos mais belos e, a partir daí, apresenta-lo em sua leitura da condição humana, sua inquietação diante da indiferença a qual nós somos conduzidos nas relações interpessoais.)

I
Qualquer um ser humano
Com amargura remoída
Só se negaria a reclamar
Diante da tortura atrevida
Se tivesse coração de aço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

II
Seu coração é um acrobata
Ele sorri da própria ferida
Se opondo a mal tratante dor
Serenando a dor da sua lida
Entre a glória e o fracasso…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

III
A multidão desata em riso
Mas não percebe a medida
Que assiste as suas piruetas
Amenas, tragédia escondida,
Que não se expõe um traço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

IV
Mas há de vingar descaso
Da platéia nada esclarecida
Que assiste ao ato paradoxal
Enquanto sai envaidecida,
Amarrada ao próprio laço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

V
Mas se ninguém percebe
A dor que o poeta trucida
É inumano não senti-la, pois,
A todo instante remordida,
Ao coração causa inchaço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

VI
Mas há de provar a todos
Que a dor deveras parecida
Das tragédias sua e coletiva
Em todos nós escondida,
Faz morada e faz regaço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

VII
Com “O meu palhaço” revisto
Poesia nobre aqui relida
Poema de angústia e jura
Lira da afronta merecida
Renovo a alma, renasço…
E um poeta se faz palhaço
No circo louco da vida.

Evaldo Pedro da Costa Brasil
(24 de Março de 2008)

veja a primeira capa


C49-008 A liberdade do Homem-nu


I
Ainda circula entre nós
De narinas empinadas
O pioneiro Homem-nu
De aventuras afamadas.
Teria sido, mas já não é,
Uma criatura só, sem fé,
Ou se afigurava do nada?

II
Teria sido uma doença ou
Uma aposta entre amigos?
Ou mesmo falta de crença
Que alimentou tal perigo?
Seria a ausência dos seus?
Algo sem perdão de Deus?
Lobisomem ou papa-figo?

III
Teria sido uma sodomia
Ou somente vadiagem?
O fruto da esquizofrenia
Ou apenas molecagem?
Por não segurar impulso
Por se meter no incurso
Em rumo de libertinagem?

IV
Teve quem visse e corresse
Temendo um ataque voraz
Teve quem visse e calasse
Ante a ameaça do rapaz.
Mas eis que a luz acendeu
A cidade inteira aprendeu
Todos ficariam em paz.

V
Nos tempos de falta de luz
Nunca faltava imaginação
As estórias de Trancoso
E aquelas de assombração
Circulavam em sítios e ruas
Como se fossem ninfas nuas
Entre o lúdico e a perversão.

VI
Por diversos tipos e tempos
Assim se renova essa estória,
Como por alumbramento,
Sem deixar fama ou glória,
Inspiração, medo secreto,
Desejo sombrio, concreto,
Nem certezas na memória.

VII
Vai-se enterrar numa cova
O que não virou prisão?
Ou já se dá por remido
Diante da programação?
O mito morre, superado,
Pouco ou nada é falado.
São tempos de televisão.

• Extra •
Está aí, contada uma estória,
Baseada em alguns fatos reais
Resgatados no fio da memória
Apelando que não mora jamais.
Se alguém conhecer outro fato
Isso pode gerar um novo relato
Ler e rir são melhor, quanto mais.


Evaldo Pedro Brasil da Costa
(21 de Dezembro de 2007)

C49-034 Revisitando o Retorno do Poeta



(A Poesia de Silvino Olavo I) Página 4 do Boletim Virtual, uma releitura do célebre poema "Retorno".

C49-002 Se a Minha Esperança Fosse Menor que a Esperança Minha


[Inspirado em Zé da Luz, pelo Cordel do Fogo Encantado, travo uma batalha no condicional, tratando das nossas esperanças: sentimento e cidade. De quebra, os agentes que se julgam no poder de mudar nossos destinos são aqui alfinetados. Coméce vem acentuado para não ser lido por comesse e rimar com o afirmativo Césse (acabe) entre tantos êsses.]

I
Se o azul do céu morresse
Se o dia toda luz perdesse
Se hoje o mundo se acabasse.
(Como vôo de uma andorinha)
E assim eu me lascasse.
Só se essa cidadela fosse
Maior que a esperança minha.

II
Ai de quem ainda vivesse
Ai de quem permanecesse
Se isso tudo assim mudasse.
(No jogo das garrafinhas)
E a vida da gente decidisse.
Só se os anticristos fossem
Maior que esperança minha.

III
Que o fogo do inferno césse
E o astro-rei à noite acenda
Que hoje o mundo coméce.
(Como nasce uma estrelinha)
Só assim eu me calasse.
Mas se minha esperança fosse
Menor que essa cidadezinha.
IV
Ai do que nem sequer merece
Ai daquele que nem aprende
E, contudo, não se engrandece.
(Nem dão fim às panelinhas)
E em luta nem se ferisse.
Só se minha esperança fosse
Menor que a de um coroinha.

V
Se em preto o mar se virasse
Se o gelo polar derretesse
Se amanhã eu nem lembrasse.
(Meu canto triste em ladainha)
E como queira me matasse.
Só se o desesperado fosse
Maior que a esperança minha.

VI
Aí, se ajuntar o que padece,
O que jamais se rendesse
Nem com tudo se enganasse.
(Para acabar certas briguinhas)
Apesar do que não se abrace.
Nem se minha esperança fosse
Pior sem ela, rabo de sardinha.

VII
Se o dia em breu terminasse
Tristes sinos badalassem
Cada um do bucho cuidasse
Comendo um pote de farinha.
E assim mesmo me ferrasse…
Só se minha esperança fosse
Menor que a terra mesquinha.

• Extra •
Se esse estilo não me surgisse
Em sete sétimas não se movesse
E esses versos não se explicassem
Só renovassem a poesia minha…
Aí, se a forma de mim só risse,
Se essa norma minha não fosse
Quarenta e nove versos não tinha.


Evaldo Pedro Brasil da Costa
(02 de Novembro de 2007)

veja abaixo a primeira capa