Postagens

Mostrando postagens de Abril 12, 2014

C49-013 A Ondulação leve da Superfície das Águas

[O Açude Velho, Banabuyê (Banabuié) é aqui o objeto de discussão. O enredo gira em torno dos significados da palavra “Siririca”. Trata-se aqui, de como, aos poucos, a comunidade cometeu o crime coletivo de levar o açude a ser fossa a céu aberto, até agora, quando obras públicas começam a revitalizar a área. O Parque do Açude Velho é solicitado como sonho de infância.]

I
A palavra tem alma, tem uso e razão,
Em sua origem define algo bom e real
Com o tempo muda, para novo uso,
Mesmo assim continua soando normal.
Qual a rota, o caminho por ela seguido,
Pra manter-se atual e ter novo sentido
Arrancaria a poesia de ser original?

II
Lancei uma pedra no velho Banabuyê
Ajudei a matá-lo, sequer ficou mágoas,
E as esferas surgiram em belos sinais
Sumiram ligeiras, sem foto, sem flagra.
Continuaram as siriricas, na origem tupi,
Como ninfa bailando, que em menino vi,
Leve ondulação da superfície das águas.

III
Pesquei uma piaba no velho Banabuyê
Ajudei a despovoá-lo com uma siririca
Mergulhei sem nadar com a lama no…

C49-012 De Como o Lobisomem Revelou seu Amor

Imagem
(No coito da Porca Libidinosa com o Homem-nu)



(Nesses versos o eu lírico, em primeira pessoa, se faz personagem principal e narrador. Os personagens que povoam a imaginação dos mais velhos moradores de Esperança, aqui se encontram, enquanto a sexualidade é tratada de modo heterodoxo, tendo como cenário coisas da cidade e o Açude Velho Banabuyê).

I
Acordei da minha condição humana
E a noite ficou clara como um dia.
Senti o cheiro de uma loucura insana,
Estranho encontro, verdadeira orgia.
Quando a lua-cheia se fez sol pra mim,
Entre flores pisadas, eu, no seu jardim,
Sondei pela janela, era você, quem via.

II
Enquanto a Porca se transformava
E o Homem-nu em branco reluzia
Outros casais também fornicavam
Tantos em sono; outros em agonia.
Eu farejava um forte cheiro de sexo
Num aparente encontro sem nexo
Eu e você, neles dois – eu veria.

III
Cruzei a cidade em plena escuridão
Pelo beco do padre, eu perseguia,
Sem sinal da cruz, sem temer punição,
Sentido ampliado: o instinto, meu guia.
Na libidinosa ninfeta, t…

C49-011 O Sumiço do Lobisomem que Era um Bode Mascarado

I
Sempre há de tudo um pouco
Nas origens, em qualquer vila,
Mitos de heróis desbravadores
Mulher machona que virava gorila.
Figuras pitorescas, desmioladas,
Marias e Adélias, vidas frustradas,
Até o uivo de um lobisomem sibila.

II
Sob uma máscara de pele de bode
Circulava nas noites sem energia
Para seus encontros amorosos
A dois, a três, em suruba ou orgia.
Em sua atuação assustadora
Atacava das negras às louras,
Casadas e solteiras, quando agia.

III
Em suas ações de vadiagem
Quando pelas partes combinado
Gemidos, uivos e os assobios,
Pra outros ficarem afastados.
Tudo corria na mais santa paz
Para jovens moças e pro rapaz
Naquele animal transfigurado.

IV
Mas nem todos deixavam pra lá
Já que muitos tiravam proveito
Para agir nas madrugadas de lua
Era preciso no artista dar um jeito.
Em tocaia pegaram o marginal
Em sua porta deixaram um sinal
Máscara presa à porta do sujeito.

V
A povoação não tinha energia
E o escuro da noite estimulava
A tradição de contar Trancoso
E as assombrações congelavam.
À mesa, nas antessalas, s…