quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Pós Vendo Carnaval 2016 | Esperança/PB

Minha história de Carnaval 2016

De longe se ouvia a batida ritmada. Será U-Pereira? Mas já é quarta-feira de Cinzas! O ritmo foi ficando mais forte e nada o quebrava. Sem alteração de tempo, compasso, altura... parecia um mantra. Destacavam-se ritmistas, Bin Laden, Michael Jackson e uma Girafa circulando por Esperança, na esperança de um Carnaval 2017 maior e melhor.

Antes, gritos, risos e garrafas se quebrando em choque com o asfalto caracterizavam a algazarra típica da volta pra casa depois da festa no corredor da folia, depois do arrasto do bloco da saudade, precedido das concentrações em casa, sedes e nas casas de políticos.

A passagem do bloco foi tranquila, o asfalto não rachou embora o piso de madeira do meu castelinho tenha tremido, como sempre, desde o advento da baianização do nosso Carnaval. A 5ª Onda havia me tirado do foco, estava renovado. Campina Grande me recebeu com um pouco de chuva, depois de ter ficado por dez, quinze minutos esperando o arrasto das crianças na manhã da terça, já era tarde para o ônibus sair.

A manhã foi de ala-ursas pelas ruas do Catolé de São Francisco, prestigiando seus moradores, subindo e descendo por suas ruas e ruelas estreitas e onduladas. Os moradores corriam, os cães pareciam entrar no ritmo. Depois centro, com bela demonstração de interação na praça da cultura, principalmente com as crianças que exercitavam o desassombro.

Nas quebradas do trio, o atraso imprevisto que não incomodou quem massa de dentro e ajudou a quem público refletir e fazer escolha, ainda dá pra esperar ou vou pra casa? Era segunda, quando o meu Carnaval acaba. O concurso de Ala-ursa não se aperfeiçoou como desejava: dificuldade de diálogo, indefinição de papéis... como se as coisas acontecessem por osmose. 58 brincantes vestidos para a festa, sendo 42 a caráter, 15 diversificados e um hors concours foram as estrelas que brilharam à tarde, enquanto centenas compunham as batucas da Ala-ursa do Beco, do Morro do Piolho e do Catolé de São Francisco. Correu a boca miúda que um Mestre Brincante teria lacrado a sede e impedido das suas ala-ursas participarem. Certo é que houve quem preferisse não comparecer, escolha a ser respeitada. Um novo mestre brincante começou a se destacar, identificado pelo apelido da avó dona Malala.

Na manhã daquele dia Mulher Macho circulou de arrasto, como nessa prática, aumentando as vendas de protetor solar. Mas a alegria etilizada ou não era maior que o incômodo da exposição ao deus sol. Rei Momo não se rende a ele, apesar do granizo que relembrou 74 ou 73. Mas teve Escola de Samba Quero Mais, abrindo alas por onde passava, fazendo o corredor da folia em sentido inverso, pela João Mendes e Manoel Rodrigues, quando meninas em sua maioria brincavam sob os olhares de mães e irmãs mais velhas, principalmente. No desfile, estandarte com a campanha Por uma Infância sem Racismo, do Unicef, parceria local entre a Prefeitura Municipal e a Associação Afro-cultural Quero Mais/AAQM.

O arrastão do domingo me tirou do descanso. A tarde me foi pesada. Depois de muito tempo sem beber, havia tomado três bavarias lata verde e muito sol, acabei ficando em casa quando por aqui passava no bloco das Lias. O Super Saiajeans não aguentou a batalha. Na praça e no trajeto, até a bateria arriar fiz em torno de 200 fotografias entre 3x4 e 10x15 das brincantes. Os índios haviam invadido as ruas. Nem pude cumprir compromisso de última hora.

O arrastão de abertura me impediu de ver ouvir os Pereiras. Se passaram por aqui não sei. Só podemos dormir bem depois da passagem do trio e nem ouvi os de volta pra casa. O sono era também de cansaço depois de três dias trabalhando na oficina do Mestre Brincante Marquinho Pintor. Os últimos detalhes do bloco dos Bonecos são dados quando seus tripas vestem pernas, entram no tronco. Ajusta aqui, amarra ali e eis que chega o carro de som para conduzi-los até a praça da cultura.

Mas quem disse que U-Pereira abre o Carnaval de Esperança está equivocado, senão atrasado uma década, pelo menos. Vi e registrei nos últimos anos, não uma, mas várias vezes as Ala-ursas durante todo o janeiro e até brinquei com o Mata-o-Velho nos sábados anteriores. Nove edições do concurso de Ala-ursas desde a dupla Marquinho & Mariete até a oficialização, pelo menos dois por Mariete & Fernando, o de Fernando este ano e as notas do concurso no Portal e nas escolas, contabilizo pelo menos 15 edições. É ou não é a Ala-ursa nosso maior símbolo e quem, de fato, abre o período? Que faça a festa à revelia do Rei Momo ou com seu aval.

Sarau do FIC 2016.1 | Pré Vendo Carnaval | Esperança/PB

Ata do Sarau 2016.1 – PreVendo Carnaval
Os que ficaram até o final 1
Ata do Sarau do Fórum Independente de Cultura-FIC, Edição 2016.1, em 30 de janeiro de 2016, denominado “Pre-Vendo Carnaval”, na Câmara Municipal de Esperança. Após a última das assinaturas dos presentes, lavraremos esse registro. (Ass).
A abertura se deu por Evaldo Brasil, que fez a apresentação do FIC com um retrospecto das atividades deste Fórum, há quase dois anos desenvolvendo atividades culturais em Esperança; informando que já estamos cadastrados como Ponto de Cultura em www.culturaviva.gov.br, ao lado do Grupo Teatro Jesus de Nazaré-GTJN, que faz a “Paixão de Cristo”, dentre outras montagens, apontando o desejo de que todas as iniciativas locais se cadastrem, para que tenham certificação federal.
Lembrando que o sarau tenta a pontualidade britânica e começa com quatro, dez, vinte e já contou ao final com mais de cinquenta participantes, sem a preocupação de se tornar evento de massa, bastando ser encontro de púbico, Brasil informou a programação deste dia.
Ato contínuo, após diferenciar massa e público, Brasil fez a leitura da ata anterior, do Sarau do FIC Verde, realizado na comunidade de Timbaúba. Em seguida, teve início o ciclo de conversas sobre o Carnaval. Tomando a palavra, como programado, Rau Ferreira faz um histórico do tríduo momesco, especialmente em Esperança. Marquinhos Pintor, presidente da AAQM (Associação Afro-cultural Quero Mais), falou de seu envolvimento com a festança, desde a infância ao lado do pai, o popular “Moleque”, dos irmãos e da irmã, passistas da “Última Hora”, discorrendo de como eram feitos os instrumentos, de maneira artesanal; fala das papangus, do Zé Pereira, das Escolas de Samba e dos Índios até chegar à “Ala-ursa”, cujo resgate nos últimos 10 anos vem sendo promovido pela “Quero Mais”, cuja a realização do atual concurso oficial começou sob a organização dele, com patrocínio e participação da ativista Mariete Delon. Dentre as ponderações do público-plateia-atração presente, duas se destacaram: Adelson dos Santos, evangélico, mostrou conhecer o tema, fazendo menção a alguns blocos da Cidade; Ivanildo Xavier, que chamou a atenção para a importância da Ala-ursa, pois em Campina Grande, onde reside, não se tem mais essa figura, enquanto que em Esperança, muitas pessoas ainda não lhe dão o devido valor.
Brasil, Carlos Almeida, Severino do Ramo, dentre outros pontuaram ao longo das falas. Às 21 horas, a segunda parte do Sarau, teve início com os poemas “Carnaval de Seu Jacinto, em homenagem ao jornalista esperancense Jacinto Barbosa”, em três cordéis (E. Brasil).
Almeida relembrou o seu Recife, disse e cantou, à capela, “Felinto” (Evocação Nº 1, de Nelson Ferreira). Fernando Virtuosi, Severino e quem se dispôs a usar dos instrumentos disponíveis, executaram “Acorda Maria Bonita”, do cancioneiro popular, com flauta doce e percussão.
Rau Ferreira, por sua vez, falou da dualidade que há entre poesia popular e clássica, dizendo que cada uma tem sua beleza, e que entre erudito e popular há muita afinidade. Após as ponderações de Brasil e de Ivanildo Xavier, a despeito de não serem critérios de valor, mas apenas didáticos, Ferreira recitou versos de Zé da Luz: “As flô de Puxinanã”. Em seguida, disse “Joaquim Tomaz”, versos de repente de Silvino Olavo, em resposta a um desafio.
Almeida, lembrando fala de Severino sobre as Muriçocas do Miramar, à capela cantou música do seu torrão, titulada “Esperança”, de Valtinho (Banda Pau de Cordas).
Diante das referências a Pernambuco, suas cidades e artistas referenciados no Sarau, Brasil trouxe para o debate Antônio Nóbrega, que resgatou dentre outras, marchinhas e frevos em seu trabalho, especialmente no CD “Na pancada do ganzá”, contando do saber da avó materna de “Truléu da Marieta” e suas variações. Iordan Alves Carneiro fez alguns versos de improviso, falando dos ancestrais que estavam presentes na memória dos carnavais e que encontram em Esperança o seu lugar. Ele ainda tomou do pandeiro trazido por Severino para cantar “Deixa a vida me levar” (Zeca Pagodinho), acompanhado em coral por todos.
Enquanto se espera mais alguém soltar a voz, Brasil disse o “Carnaval 2025”, de como ele se projeta para o ano do Centenário da nossa emancipação política (Cordel 49-176). Logo após, Severino fala do Carnaval de Bezerros/PE – o carnaval de máscaras – onde os blocos concorrem a melhor máscara a cada ano, dizendo que aquele município também tem outra atividade, que é a xilogravura sendo, portanto, considerada a cidade do cordel.
Na ocasião, Brasil contou uma história vivenciada por ele em Triunfo/PE, onde foi confundido, numa brincadeira entre artistas locais, com o cantor Nando Reis, onde se encantou com a referência aos Caretas do Carnaval. Beilza Pessoa falou do carnaval do mela-mela em Macau/RN, onde o mel se mistura ao calor e ao sal. Lá, a tradição são as festas de clubes, mas o “Bloco do Mel”, sem avisar, saia de algumas ruas e ruelas, e invadem o corredor da folia; seus componentes empurram carros de mão com tonéis de mel, passando a lambuzar as pessoas.

Pertinho do final deste Sarau, Juscelino Cavalcanti comentou o contraste entre público e massa, louvando a iniciativa do FIC. Disse que é comum “valorizar setores da mídia que não vão agregar sabedoria e conhecimento”. Feita foto oficial, como de costume, Rau Ferreira ainda fez a leitura do seu poema “Carnaval de todos os tempos”. Ao final, Fernando Virtuosi e Severino do Ramo (flauta doce e percussão) tocaram a conhecidíssima “Anunciação” (Alceu Valença) e Asa Branca, imortalizada pelo rei do baião Luiz Gonzaga. Finalizado os trabalhos, formaram-se rodas de amigos para as despedidas, já convocando para o próximo encontro, que será no mais tardar em março. E para constar, lavramos esta ata a quatro mãos, Rau Ferreira/Evaldo Brasil.
Os que ficaram até o final 2